L-carnitina: dá força ou queima
gordura?
Suplemento é usado por praticantes de
exercícios como fonte de energia. Eficácia é questionada por especialistas
Suplemento atrai praticantes de exercícios
No ranking das receitas de academia,
os suplementos de L-carnitina sempre tiverem espaço garantindo.
O apelo é bastante atraente: eles
seriam capazes favorecer a metabolização de gordura e isso aumentaria a
disponibilidade de energia para fazer exercícios.
Parece a combinação perfeita. A
pessoa teria mais disposição para treinar e queimaria mais gordura. Com essa
premissa, o suplemento conquista até hoje a simpatia de quem deseja definir a
musculatura ou acelerar a queima de gordura. Contudo, não há evidência
científica que sustente qualquer um destes benefícios.
Creatina: aliada ou vilã?
O mito surgiu a partir de pesquisas
ligadas à falta de carnitina no organismo. Foi verificado que a ausência da
substância favorecia o acúmulo de gordura. Diante disso, os educadores físicos
imaginaram que o oposto iria favorecer a queima de gordura. Ou seja, se falta
de carnitina aumenta a gordura, o inverso aconteceria se o corpo passasse a
receber carnitina.
Parece um raciocínio coerente, mas
diversas pesquisas realizadas com usuários de L-carnitina demonstraram que esta
lógica não se sustenta.
“O fator limitante para perda de
gordura corporal não é a disponibilidade de L-carnitina, pois o organismo já
produz grandes quantidades desse composto. O fator limitante é uma molécula
chamada coenzima A (CoA), que controla o quanto de gordura está disponível como
fonte de energia”, afirma o nutricionista Humberto Nicastro, pesquisador da
Escola de Educação Física e Esporta da USP.
“Em termos numéricos, o organismo
humano apresenta aproximadamente mil moléculas de carnitina para cada molécula
de CoA”, compara o especialista.
Malhação com energético
A grande maioria dos estudos não
comprova a relação entre L-carnitina e queima acentuada de gordura. “Apenas um
trabalho publicado este ano sugere outro resultado”, aponta o educador físico
Antonio Herbert Lancha Jr, especialista em nutrição esportiva e professor da
USP.
No estudo, conta o professor,
indivíduos consumiram carnitina combinada com 640 kcal de carboidrato na forma
de glicose. A combinação demonstrou economia de carboidrato com maior tempo de
exercício. Isso indica maior queima de gordura, de acordo com os pesquisadores
da Universidade de Nottingham, autores do estudo.
“Porém, o indivíduo precisar fazer
restrição calórica pelo consumo adicional de carboidrato”, pondera Lancha Jr.
Suplementos alimentares ajudam mulher a
emagrecer
O maior benefício foi observado no
desempenho das pessoas. “A suplementação foi capaz de diminuir a produção de
lactato, o que pode estar relacionado com a fadiga muscular, e poupar os
estoques de glicogênio muscular, o carboidrato armazenado no músculo”, observa
Nicastro.
Outro argumento relacionado ao uso de
L-carnitina é que o suplemento seria capaz de alterar os níveis de colesterol,
aumentando o bom (HDL) e reduzindo o ruim (LDL). “A elevação do HDL está mais
relacionada à prática regular de exercícios aeróbicos (caminhada, corrida,
natação, etc.). Não temos ainda estudos confiáveis sobre esse suposto efeito da
L-carnitina”, argumenta Jomar Souza, especialista em medicina do exercício e
diretor da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte.
O que comer antes e depois dos
exercícios
O benefício do suplemento para
regular os índices de colesterol seria indireto, se a evidência do estudo
inglês for verificada em novas pesquisas. “No caso do desempenho de exercícios
de alta intensidade e curta duração (anaeróbio, como a musculação), a
L-carnitina pode auxiliar por meio da preservação do glicogênio muscular
(carboidrato armazenado no músculo) e um possível retardo na fadiga”, destaca
Nicastro. Ou seja, o usuário do suplemento teria mais disposição para se
exercitar, embora sejam os exercícios aeróbios mais eficientes para influenciar
os níveis de colesterol.
A nutricionista Rafaella Kamantschek,
da Associação Brasileira de Nutrição Esportiva, reforça a afirmação.
"Alguns estudos demonstraram que a L-carnitina poderia retardar a fadiga
muscular e as dores causadas pelo
esforço físico excessivo", aponta.
Força ou fôlego
Essa nova evidência do estudo inglês
reforça alguns indícios de que o potencial da L-carnitina esteja relacionado à
musculação, em vez de atividades aeróbias. “O maior benefício ocorreria em
exercícios de alta intensidade, como a musculação”, detalha Souza. Isso derruba
a esperança de muitos alunos acima do peso, que buscam na L-carnitina uma forma
de turbinar os efeitos de corridas em esteiras ou bicicletas ergométricas.
Além disso, o suplemento pode ser
mais eficiente em homens do que em mulheres. “Se houver alguma influência na
massa muscular, ela será mais evidente nos homens pelo efeito conjugado da
maior quantidade de testosterona em relação às mulheres”, avalia o médico.
Contudo, isso é ainda uma hipótese.
A fórmula mágica continua não
existindo. Quer emagrecer ou ganhar músculos? O jeito é suar a camisa. “Não
existe intervenção mais eficaz que a prática regular de exercícios físicos
combinada a um programa alimentar, sendo ambos acompanhados por profissionais
da área de educação física e nutrição”,






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